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Uma História de Coevolução entre Homem e Bacilo

Aproveitando que hoje é o Dia Mundial da Tuberculose (TB), publicamos aqui uma síntese da trajetória milenar desta doença, que continua sendo um dos maiores desafios para a saúde pública global e um marcador das vulnerabilidades sociais contemporâneas, que fará parte de um artigo que estamos preparando para um livro coordenado por José Luis fiori e Claudia vater sobre “O poder, a ética e a saúde internacional”.

A tuberculose não é apenas uma doença do presente; ela acompanha a humanidade há milênios. Estima-se que o gênero Mycobacterium tenha surgido há mais de 150 milhões de anos, com ancestrais infectando hominídeos na África há cerca de 3 milhões de anos. O Mycobacterium tuberculosis adaptou-se ao ser humano por volta de 6.000 A.E.C., coincidindo com a revolução agrícola e o surgimento das primeiras aldeias no Neolítico.

O aumento da densidade populacional e a convivência em espaços fechados foram cruciais para a disseminação do bacilo. Ao longo da história, a TB esteve presente nos grandes impérios da Antiguidade — da Suméria e Egito até Roma e China — espalhando-se pelo mundo através das guerras e migrações.

Da “Peste Branca” à Revolução Científica

Durante a Revolução Industrial no século XVIII, a TB atingiu proporções epidêmicas, tornando-se conhecida como a “Peste Branca” devido à palidez dos enfermos. Naquela época, a mortalidade em centros urbanos como Londres chegava a 1.000 casos por 100.000 habitantes. Embora inicialmente romantizada na literatura e nas artes, a doença logo se revelou um sintoma das fragilidades sociais e da pobreza extrema.

O cenário começou a mudar com marcos científicos decisivos:

  • 1882: Robert Koch identifica o M. tuberculosis como o agente etiológico.
  • 1921: Desenvolvimento da vacina BCG por Calmette e Guérin.
  • Décadas de 1950/60: Descoberta de antibióticos eficazes (estreptomicina, isoniazida, rifampicina), permitindo o tratamento ambulatorial e o fechamento de sanatórios.

O Ressurgimento: Emergências Globais e Resistência

Apesar do otimismo da década de 1970, quando se acreditava na erradicação da TB, a doença ressurgiu como emergência global em 1993. Esse retorno foi impulsionado pela epidemia de HIV/SIDA, pelo aumento da pobreza e pela emergência da tuberculose multirresistente (TB-MR) — uma “emergência dentro de uma emergência”.

Hoje, a TB é a doença infecciosa com maior mortalidade global, superando o VIH. Dados de 2024 indicam que 10,8 milhões de pessoas adoeceram e 1,25 milhão morreram em decorrência da doença. A resistência aos fármacos continua sendo uma ameaça, com 400 mil novos casos de formas resistentes anualmente.

Estratégias Atuais e o Papel da Ciência

A estratégia “End TB” da OMS (2015) estabeleceu metas ambiciosas: reduzir as mortes por TB em 95% e a incidência em 90% até 2035. Inovações recentes trazem esperança, como:

  • Diagnóstico: Testes moleculares rápidos como o GeneXpert.
  • Tratamento: Novos regimes curtos e totalmente orais (BPaLM) para TB resistente.
  • Prevenção: Tratamentos preventivos encurtados (3HP) para contatos e pessoas vivendo com HIV.

Entretanto, a pandemia de COVID-19 interrompeu serviços essenciais, resultando em um aumento temporário da mortalidade por TB entre 2020 e 2021. Além disso, novos desafios como as mudanças climáticas têm sido associados ao aumento da suscetibilidade e prevalência da doença em países periféricos.

O Protagonismo dos BRICS+ e da REDE TB

O cenário atual enfrenta uma retração no financiamento internacional e cortes de liderança técnica da OMS. Diante desse vácuo, os países do BRICS+ — que concentram mais de 50% dos casos mundiais — assumem um papel estratégico. É urgente que esses países liderem o esforço de alocação de recursos e inovação científica.

A REDE TB, criada em 2001, exemplifica a importância da união entre governo, academia e sociedade civil para fortalecer a pesquisa e a implementação de políticas públicas no Brasil.

Conclusão: Um Compromisso Ético e Global

Superar a tuberculose exige mais do que soluções biomédicas; requer o enfrentamento das desigualdades que sustentam a doença. O caminho para a eliminação passa por:

  1. Financiamento sustentável e redução do “gap” anual de 4 bilhões de dólares em pesquisa.
  2. Abordagem de “Saúde Única” (One Health), integrando saúde humana, animal e ambiental.
  3. Justiça e equidade no acesso a novas tecnologias e cuidados para populações mais vulneráveis, como pessoas em situação de rua, indígenas e moradores de comunidades.

Neste Dia Mundial, reafirmamos que a tuberculose tem cura e sua eliminação é um imperativo ético e político para toda a humanidade.

Autores. Afranio Kritski1,8, Miguel Viveiros2, Maria Claudia Vater3, Margareth Pretti Dalcolmo4,5,8, Jose Roberto Lapa e Silva1,6,8, e Pedro Eduardo Almeida Silva7,8